Pensamento realista e otimista

Dicas para a diminuição da distância entre grupos mais e menos favorecidos


No artigo da série #EuEnsinodeCasa da semana passada falamos sobre o impacto da pandemia no bem-estar dos alunos (confira aqui). Nesse mesmo sentido, queremos trazer hoje uma reflexão sobre o senso de otimismo com relação ao futuro e como isso pode ter um impacto no desempenho acadêmico dos alunos.


Em tempos de pandemia ou não, essa é uma questão difícil quando levamos em consideração que alguns alunos vivem em situação de pobreza, crise familiar, dentre outros. Vemos ainda que no caso de pessoas negras essa é uma questão ainda mais complexa, dadas as estruturas racistas da sociedade em que vivemos. Este é um tema que tem estado bastante em alta e que é muito importante ser discutido, principalmente no contexto da educação.


Queremos destacar aqui dois estudos muito relevantes sobre o tema, propondo intervenções reais para reduzir a distância entre grupos mais e menos favorecidos academicamente. Os autores perceberam uma correlação entre baixo desempenho acadêmico e afirmam que, para os estudantes negros, o medo de que eles ou outros colegas possam ser vistos como exemplo de reafirmação de estereótipos negativos sobre sua inteligência pode aumentar o estresse e diminuir o desempenho acadêmico. Ou seja, os alunos percebem o seu desempenho individual afetando a percepção sobre o desempenho de um grupo inteiro, o que gera uma pressão psicológica muito grande e diminui ainda mais seu desempenho acadêmico.


Os pesquisadores realizaram um teste de um ano nos Estados Unidos com vários alunos da sétima série. Por meio de um exercício escrito simples, esses estudantes foram levados a refletir sobre temas de auto-afirmação, como relacionamento com família e amigos, interesses e habilidades musicais e artísticas, dentre outros. Em 15 minutos, no começo de uma aula, os alunos foram convidados a responder às seguintes perguntas:


  • Quais são os valores mais importantes para você? Pode ser sua família, amigos, ou o que mais você julgar importante na sua vida.

  • Por que você escolheu esses valores?


Enquanto isso, alunos do grupo de controle, usados no estudo para comparar os efeitos da intervenção foram pedidos para escrever sobre os valores que outras pessoas podem julgar importantes para elas e os motivos para isso. Os resultados mostram que as reflexões tiveram um impacto positivo na redução de tensões psicológicas e no estresse, podendo, com isso, melhorar o desempenho dos alunos do grupo que pensaram nos próprios valores. Isso acontece por causa da valorização da identidade pessoal e da redução do peso do estereótipo do grupo que os alunos passam a ter após a atividade.


Por ser um estudo de longo prazo (no total, o experimento foi realizado durante dois anos), os pesquisadores mostram como uma intervenção rápida pode incentivar processos e resultados por períodos consideráveis de tempo. Estudantes negros que tinham resultados acadêmicos ruins no começo do ano e fizeram as reflexões de auto-afirmação desenvolveram um senso de seu pertencimento e melhoraram o desempenho na escola com o passar do tempo.


Uma outra constatação interessante é que, para o grupo de alunos que tinha dificuldade em se sentir parte do todo e, por isso, enfrentava estresse e dificuldade acadêmica, a tendência era que professores tivessem também menos interesse e motivação para acompanhá-los e incentivá-los. Com a proposta do exercício durante o ano escolar, a perspectiva dos educadores mudou e, com isso, puderam também ser parte da transformação.


O segundo estudo é uma continuação do primeiro, mostrando os efeitos observados no segundo ano do experimento. Duas novas conclusões são importantes de serem pontuadas:

  1. A intervenção proposta reduziu o espaço ocupado por pensamentos que reforçavam os estereótipos. Esse fator, por sua vez, mudou a percepção dos estudantes alvo desses preconceitos sobre o possível viés no ambiente escolar, bem como suas interpretações sobre sucesso e insucesso acadêmico no decorrer do tempo.

  2. Apesar de terem influência no desempenho acadêmico dos estudantes, recursos materiais, sociais e psicológicos não são suficientes para garantir bons resultados. O estudo mostra como eventos isolados podem ser o elemento fundamental para atingir melhores níveis de desempenho e satisfação.


Reconhecer essas dificuldades e desigualdades é de extrema importância para professores lidarem de maneira mais adequada com a volta às aulas presenciais com seus alunos, mas também para pensar o melhor modo de atendê-los no ensino remoto. Dar a eles uma noção realista é importante, mas manter também uma relação de confiança e otimismo com relação ao futuro é fundamental para o desenvolvimento dos estudantes e a superação de possíveis traumas.


Para trabalhar a questão de pertencimento e identidade entre os alunos, você pode replicar a atividade usada no estudo, em um rápido trabalho escrito de 15 minutos no início da aula. Para trabalhar o otimismo em relação ao futuro, aqui estão algumas maneiras de fazer isso:


  1. Fale dos exemplos de sucesso: apresente de modo criativo e inspirador figuras importantes de superação, principalmente as nacionais. Conte suas histórias e explique a importância que têm para a sociedade. Ainda que a intervenção mencionada tenha tido um resultado positivo e de longo prazo no desempenho acadêmico de crianças negras, a atividade em si não trata da questão racial diretamente. Para trazer exemplos específicos de pessoas negras, que devem ser mais trabalhadas em sala, garantindo identificação de todos os alunos com casos reais de sucesso, confira este artigo da BBC Brasil, que pode ser um bom ponto de partida.

  2. Proporcione oportunidades de colaboração na sala de aula: ajudar outros alunos e até mesmo o professor em atividades simples pode ser um incentivo ao senso de pertencimento e gerar uma relação mais otimista com relação ao trabalho e ao futuro. Para isso, é preciso mostrar como o que estão fazendo é útil e importante, além de verificar sempre como o estudante tem se sentido com relação a isso.

  3. Note os pontos positivos: trabalhe a maneira como os alunos veem a si mesmos e os outros. Promova momentos de discussão sobre o tema, fazendo-os refletir quem são e qual seu papel na sociedade. Exercícios como esse, além de tratarem as mentes dos alunos, colaboram para o aprendizado sobre cidadania, sociedade e valorização do outro e de si mesmo.


Você já trabalhou esses temas com sua turma? Conta aqui para a gente!

Referências:


ELIAS, Maurice J. "How to Boost Students’ Sense of Optimism". Disponível em https://www.edutopia.org/article/how-boost-students-sense-optimism


COHEN, Geoffrey L., GARCIA Julio, PURDIE-VAUGHNS, Valerie, APFEL, Nancy e BRZUSTOSKI, Patricia. "Recursive Processes in Self-Affirmation: Intervening to Close the Minority Achievement Gap". Science, New Series, Vol. 324, Nº. 5791. Abril de 2009, páginas 400-403. Publicado por American Association for the Advancement of Science.


COHEN, Geoffrey L., GARCIA Julio, APFEL, Nancy e MASTER Allison. "Reducing the Racial Achievement Gap: A Social-Psychological Intervention". Science, New Series, Vol. 313, Nº. 5791. Setembro de 2006, páginas 1307-1310. Publicado por American Association for the Advancement of Science.

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