Pais não são os professores de seus filhos

Entrevista com Silvia Takai sobre sua perspectiva de mãe e professora


Na pandemia, a relação entre pais e filhos sofreu consideráveis transformações. Muitos foram os desafios para os diversos perfis familiares, e hoje queremos abordar uma situação específica: a da educação. Nesse sentido, identificamos 3 cenários possíveis:


- Professores com dificuldade para ensinar: mesmo com formação e apoio, é difícil se adaptar a um novo contexto tão diferente do que estavam habituados.


- Professores com dificuldades para ensinar os próprios filhos: afinal, como transpor a prática quando existe uma relação diferente com a criança?


- Pais no papel de professores na pandemia: acompanhar as atividades em período normal, checar o boletim… Até aí tudo bem, mas como agir quando o “professor presencial” é você? Sem qualquer preparo específico, a situação pode ser ainda mais complexa.


Conversamos com Silvia Takai, professora do Ensino Fundamental I e mãe do Lucas, de 7 anos, sobre os desafios enfrentados nessa nova rotina. Acompanhe a seguir!


1. Quais você entende terem sido as principais mudanças no dia a dia de professores que também são pais durante o período da pandemia?


Acredito que literalmente se dividir em dois, porém em um mesmo espaço e tempo. Não é incomum pais terem suas reuniões, aulas ou home office interrompidos para realizar tarefas manuais com seus filhos, ou mesmo parar e responder uma dúvida. Tem sido um desafio enorme se concentrar e produzir. O tempo inteiro você tem que escolher entre seu filho perder a aula, ou você perder alguns minutos de aula para ajudá-lo. É uma situação muito semelhante dos pais não professores que trabalham em casa também.


2. O que você considera ser o centro das dificuldades e problemas enfrentados nessa nova realidade?


Não se trata somente de uma questão de formação acadêmica para exercer perfeitamente essa função, não é simplesmente porque “não aprendi a dar aula, não fiz curso de didática, não tenho experiência com crianças, não tenho escolaridade suficiente...”, vai além disso.


Quando um pai ou uma mãe ensina seu filho, eles o fazem porque querem que ele aprenda (óbvio), mas não estão preparados para que eles falhem, e eles vão falhar! Porque no fundo no fundo o que todo pai e toda mãe quer é proporcionar ao filho aquilo que eles mesmos não tiveram, que consigam o que não conseguiram, que para ele tudo seja PERFEITO! É uma tentativa de corrigir os nossos erros nos nossos pequenos. Mas, sendo bem honestos, quem é que gosta de encarar os próprios defeitos?


“Com meu filho eu tenho a oportunidade de fazer diferente!”, uma espécie de segunda chance na vida de fazer uma melhor versão de nós mesmos. Mas eles, assim como nós, nunca serão perfeitos, e eles vão falhar, faz parte do desenvolvimento natural da vida, tendo pais que são professores ou não. O que todos nós temos em comum é a inabilidade de lidar com os erros dos nossos filhos, e aí vem a voz grossa, a insistência, a chamada de atenção, a bronca, ou até uma mínima expressão de decepção. A criança recebe tudo isso como um peso de não ter atendido às expectativas daquele que ela mais queria impressionar.


3. Como sua visão de professora influencia nessa experiência?


Quantas vezes não perdemos a paciência, nos sentimos incapazes, e despreparados para ajudar nossos filhos a estudar nessa pandemia? Por muitas vezes, isso se dá por uma tarefa que nos foi incumbida sem a possibilidade de escolha, e é essa a situação que nos encontramos quando vimos a necessidade de reinventar nossa rotina de trabalho, casa e família na situação de confinamento que a pandemia nos colocou.


Como professora, eu tenho controle sobre as minhas expectativas à cada idade, consigo esperar o desenvolvimento do aluno aceitando seus tropeços no caminho, me mantendo consciente de que são extremamente necessários. Já como mãe, eu não consigo separar. É difícil aceitar que meu filho fracasse diante dos meus olhos, já que ninguém se dedicaria tanto ao filho quanto sua própria mãe.


Não, não é fácil ensinar o próprio filho, simplesmente porque não é fácil executar dois papéis ao mesmo tempo, ou deixar de lado aquele que mais temos familiaridade, o de provedor, protetor, cuidador, acolhedor, de porto seguro, aquele que garante que tudo sairá perfeito. Esse é o mesmo motivo pelo qual os médicos não operam familiares, é muito difícil separar a razão da emoção.


Vamos pensar que somos pais, pais presentes, pais ajudantes, pais auxiliares, mas não podemos carregar o fardo de sermos professores de nossos filhos. Devemos preservar a nossa saúde mental e a de nossas crianças.


4. Você tem alguma dica para compartilhar com nossos leitores que têm vivido situações parecidas?


Para os pais não professores:


- Continuem sendo pais, abaixem suas ansiedades, expectativas, e cobranças de si mesmos, estamos passando por um período imperfeito! Nem os melhores profissionais do mundo puderam evitar tudo isso, é o momento de aceitar as imperfeições. O seu filho precisa de você, do seu suporte, seu apoio, que você o ajude a separar os materiais para aula, que ensine como usar as tecnologias, mas você não precisa carregar a função de professor.


- Se por acaso o professor solicitar a ajuda para uma eventual atividade ou lição de casa, respeite a idade do seu filho. Em séries iniciais (1º e 2º ano) ele não precisa conseguir ler tudo sozinho, por exemplo, a não ser que seja uma atividade de leitura (nesses casos os textos já são adequados).


- Limite-se à matéria. Se não é português e seu filho está com dificuldades, experimente ler o enunciado para ele interpretar (1º e 2º ano), do 3º ano em diante pode deixar com eles. Às vezes a criança trava já no começo do exercício por dificuldade de leitura e não em cálculo.


- Procure questionar e não dar a resposta. Sabe quando queremos pegar alguém na mentira? Então começamos a fazer muitas perguntas que encurralam a pessoa até ela ficar sem saída. É exatamente isso que devemos fazer, pergunte, pergunte, e pergunte, uma hora ele consegue chegar na resposta. Ex: o que está escrito aqui? CASA. Muito bem, e aqui? Não sei. Ok, e como você escreve VACA? Muito bem! Se aqui você leu CASA e aqui você usou essas letras para escrever VACA, será que dá pra usar esse começo CA com esse começo VA para descobrir o que está escrito aqui? (CAVALO).


Para os pais professores:


- Entregue, confie e aceite, para no final agradecer. Tudo que foi dito até agora culmina na preservação do seu trabalho, da saúde mental dos filhos e dos pais. Quem nunca teve a infelicidade de dar aula para o próprio filho, sinta-se privilegiado! Não é justo com eles, e quando percebemos isso, o sentimento de culpa não é justo conosco. Minha única dica é: seja mãe/pai, brinque, cuide, pergunte se está tudo bem, ofereça ajuda, e se segure para não ensinar, exija compromisso e comprometimento com a escola, mas acima de tudo: ACOLHA.


5. Alguma dica ou conselho final? Pensando especialmente nessa situação de retorno ao trabalho e/ou às aulas?


O principal ganho neste ano não foram conteúdos de aulas online escolares. O maior aprendizado dos seus filhos foi em autonomia, responsabilidade, compromisso, valores, disciplina, resiliência, capacidade de adaptação e superação, entre um milhão de outras habilidades que em situações normais não seriam tão exploradas como agora. Com essas ferramentas, eles serão capazes de enfrentar os obstáculos que virão nos próximos anos.


O conteúdo perdido não será recuperado em 2 meses de aulas, o que é esperado resgatar nessa reabertura é a socialização, espaço para serem o que quiserem, longe das rédeas dos pais e para os pais também voltarem a ser indivíduos. Portanto, permitam-se!

Agradecemos muito a Silvia por sua disponibilidade em trazer essas reflexões tão importantes!


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