Explorando a participação do estudante no ensino

Atualizado: 6 de jan.

Um aspecto de saúde para os estudantes

Ravena Albuquerque


Ensinar é entendido como uma rotina na dinâmica da sociedade que afeta a saúde individual, mesmo que dentro de espaços coletivos. Então, no ambiente da escola, é possível pensar numa metodologia de Participação dos Estudantes no Ensino, como foi pesquisado por Zofia Hammerina, Erik Andersson e Ninitha Maivorsdottera em escolas na Suécia. Os resultados indicaram que estudantes que participam como protagonistas da informação e que sugerem outras dimensões de participação, têm sua saúde melhorada e atuam mais como cidadãos. Assim, foi concluído que a ação de ensinar em si é uma dimensão vital e saudável para os indivíduos e para a sociedade que vivem. Portanto, práticas de como gerenciar responsabilidades recíprocas, promover uma boa comunicação e estimular os alunos a ensinarem deveriam ser mais presentes no dia a dia dos professores.


Normalmente, a saúde dos estudantes é considerada preocupação para os serviços de saúde das escolas. Porém, muitas vezes ela é deixada de lado tendo em vista a carga horária de aulas em que os alunos são expostos. Para os pesquisadores, isso promove o chamado “estresse relacionado à escola” (school-related stress), que implica em situações onde a própria escola interfere na saúde dos seus alunos. O estresse relacionado à escola, que é um dos maiores problemas para a saúde dos estudantes na escola, diz respeito a alunos sofrerem ansiedade, dores de cabeça, dores de estômago e/ou distúrbios de sono quando recursos pessoais já não são suficientes para as atividades da escola. Como forma de mediação, foi pensado que a participação estudantil nas decisões do ensino e na escola podem contribuir com uma boa saúde auto-avaliada.


Nessa pesquisa, foram entrevistadas estudantes do Ensino Médio (upper secondary) - entre 16 a 18 anos - em escolas para meninas na Suécia. Esse grupo foi escolhido porque foi constatado que o estresse e sintomas psicossomáticos são mais recorrentes em meninas do que em meninos na Suécia. Ainda, há outra pesquisa em que, a nível mundial, há essa maior recorrência com relação a meninas estudantes (Khanehkeshi, A., & Basavarajappa, P. (2012); Murberg & Bru, 2004). É importante notar que todos os estudantes possuem o risco de sofrerem estresse relacionado a escola. Por outro lado, eles e elas na maioria das vezes são capazes de articular suas necessidades e identificar possíveis soluções.


A partir das entrevistas, três categorias principais foram identificadas com relação às experiências dos estudantes na participação deles com o estresse relacionado à escola na prática de ensino: informados sem influenciarem, perguntados e escutados e em busca de diálogo. O estresse negativo que é experienciado no grupo analisado na pesquisa parece ser causado pela falta de influência que os estudantes têm nas decisões escolares, ou seja, na participação no ensino.


  1. Informados sem influenciarem: A falta de crivo das informações, onde a informação é normalmente inconsistente ou inacessível, as estudantes se sentem frustradas. Os professores acabam por não oferecer informações sobre aspectos importantes, como critérios de avaliação, progresso e desenvolvimento individual dos alunos.

  2. Perguntados e escutados: As estudantes sentem que não possuem nenhuma influência ou impacto real, e são vistas de maneira generalizada na sala. Desse modo, elas sentem falta de terem suas individualidades reconhecidas no ambiente escolar, e isso gera sentimentos de frustração e falta de interesse em dizer suas próprias opiniões aos professores. Na voz de algumas estudantes: “Eu quero que os professores se comuniquem mais conosco, nos perguntem que atividades nós temos nas outras matérias.” e também: “Eu quero ser ouvida, mesmo que o professor tenha a palavra final.”

  3. Buscando diálogo: É sugerido pelas estudantes a gestão de seu estresse relacionado à escola voltado para sua participação, havendo uma comunicação recíproca, responsabilidades compartilhadas e influência promovendo um impacto real.


Portanto, esse estudo destaca a importância do suporte social, emocional e também motivacional dos professores para com os alunos. Estresse relacionado à escola com frequência afeta o desempenho e os estudos dos estudantes. Ademais, as descobertas da pesquisa também sugerem que nas famílias onde os pais não possuem formação superior, os estudantes com mais frequência encontram situações de estresse na vida, e esse estresse não só influencia sua saúde, mas também no seu futuro educacional.


Então, que mudanças os estudantes querem para minimizar seu estresse relacionado à escola? Os estudantes querem ser vistos como participantes iguais democraticamente pelos seus professores, para participarem nas tomadas de decisão por meio do diálogo e para compartilharem responsabilidades, com o fim de estarem a par da situação de sua escola e promoverem uma real influência na sala de aula e no ambiente escolar.


Consequências para a saúde:

Os estudantes sofrem de estresse relacionado à escola e experienciam sintomas psicossomáticos por conta disso. Estresse pode levar a efeitos prejudiciais de maior duração, como depressão e síndrome de burnout, e pode também afetar o desempenho acadêmico. Tendo isso em vista, a prática de ensino não é simplesmente um instrumento para educação, mas também pode contribuir para a promoção da saúde.


Há muitos aspectos que impactam a saúde dos estudantes na escola: a participação no ensino, a competência de ensino, a comunicação com estudantes e colegas e professores diversificando as formas de participação. Desse modo, a saúde não deve ser somente conduzida na escola pelos serviços de saúde. O ensino em si pode promover saúde, se a qualidade da participação do estudante é educativa. Portanto, o ponto de partida dessa pesquisa é que todo dia o ensino deve ser visto como um espaço público que é principalmente constituído pela comunicação. Os indivíduos trocam pontos de vista fundamentados, identificam cursos alternativos de ação, apresentam posições, ouvem os outros, e adquirem experiências educativas, com o objetivo de terem uma educação e exercerem uma cidadania mais saudáveis.

 

Referências:


Zofia Hammerin, Erik Andersson, Ninitha Maivorsdotter. Exploring student participation in teaching: An aspect of student health in school. International Journal of Educational Research, Volume 92, 2018, Pages 63-74, ISSN 0883-0355. https://doi.org/10.1016/j.ijer.2018.09.007. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0883035518307109


Khanehkeshi, A., & Basavarajappa, P. (2012). A comparative study of the academic stress and depression among high school girl and boy students. Journal on Educational Psychology, 6, 11–20. Disponível em: https://eric.ed.gov/?id=EJ1102299

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