Dinâmica do Quebra-Cabeças

Como tornar cada aluno em um especialista na sala de aula


Com o despertar do Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos nos anos 70, educadores enfrentavam diversos problemas com a dessegregação das escolas. Isso pois a maioria das crianças negras e pertencentes a minorias étnicas, que haviam até o momento frequentado escolas sub-financiadas, encontravam-se em salas de aulas repletas de crianças brancas privilegiadas. Assim, criaram-se situações em que crianças de famílias abastadas se sobressaiam enquanto aquelas desprivilegiadas tinham muita dificuldade.


Desse modo, pareciam se confirmar antigos estereótipos: “negros e latinos são burros e preguiçosos, enquanto brancos são mandões e muito competitivos”. O resultado eram relações tensas entre os grupos étnicos e uma crescente diferença nas conquistas acadêmicas das crianças brancas e das minorias.

Baseando-se em pesquisas psicológicas em como reduzir tensões entre grupos, Elliot Aronson e seus colegas perceberam que um dos principais fatores para esse problema era a natureza competitiva da típica sala de aula. Numa sala de aula clássica, os alunos trabalham individualmente em suas tarefas, e os professores frequentemente convocam os alunos para ver quem pode demonstrar publicamente o seu conhecimento - frequentemente incentivando o medo de fracassar nos alunos, além de potenciais comentários maldosos de colegas. Contudo, e se os alunos pudessem ser ensinados a trabalharem juntos, em equipe? Um ambiente cooperativo de aprendizado poderia ajudar os alunos com dificuldades? Quando isso é feito corretamente, a resposta é um estrondoso sim!

Para solucionar esse e outros dilemas educacionais, Aronson e seus colegas desenvolveram e implementaram em 1971 uma técnica chamada “aula quebra-cabeça”. Ela é chamada assim pois cada criança em uma sala do tipo quebra-cabeça deve se tornar um especialista em um único tópico que é crucial para um maior quebra-cabeça acadêmico. Por exemplo, se os alunos em uma aula quebra-cabeça estão trabalhando em um projeto, uma sala de 30 alunos pode ser dividida em cinco grupos com seis crianças cada. Dentro de cada grupo, cada criança tem a tarefa de pesquisar e aprender sobre um tópico específico diferente dentro do assunto.


Para ter certeza de que cada membro do grupo aprendeu bem sobre o seu tópico, alunos de grupos diferentes que pesquisaram sobre cada tópico seriam instruídos a compararem seus aprendizados e compartilharem informações. Em seguida, os alunos se reuniriam novamente em seus grupos, e cada criança apresentaria a sua “peça do quebra cabeça” para o resto do grupo. Certamente, os professores teriam a importante função de manter os alunos envolvidos e de extinguir possíveis tensões que viessem a surgir. Além disso, cada aluno é encorajado a prestar atenção e ajudar seus colegas em suas respectivas apresentações de seus tópicos, pois posteriormente seria esperado que cada aluno tivesse conhecimento de todos os tópicos para, por exemplo, uma prova.


Quando corretamente realizada, a técnica da aula quebra-cabeça tem o poder de transformar uma sala de aula competitiva, em que alunos enfrentam dificuldades, em salas cooperativas, em que esses alunos com dificuldades demonstram uma melhora dramática no seu desempenho acadêmico e social - e também nas quais alunos que já se davam bem nas matérias continuam brilhando. Alunos em salas de aula do tipo quebra cabeça também começam a gostar mais umas das outras à medida que as crianças formam amizades entre os grupos étnicos e abandonam preconceitos étnicos e culturais. Finalmente, os pesquisadores encontraram que salas de aula quebra-cabeça diminuem absenteísmo e aumenta o nível de empatia das crianças. Assim, essa técnica tem o potencial de melhorar dramaticamente a educação num mundo multicultural, revolucionando a maneira que os alunos aprendem.

Desde a sua demonstração nos anos 70, a dinâmica do quebra-cabeça foi usada em centenas de salas de aula pelos Estados Unidos, tanto no Ensino Fundamental, quanto no Ensino Médio e até em faculdades. Muitas vezes, foram realizados estudos em que alunos em classes diferentes aleatoriamente receberam a instrução tradicional ou por meio da técnica do quebra-cabeça. O resultado é uma melhora no desempenho acadêmico, redução de estereótipos e preconceitos e melhora de relações sociais entre os alunos de classes do tipo quebra-cabeça, provando como a técnica é efetiva. A única pergunta restante parece ser o porquê de técnicas de aprendizagem cooperativa como a sala de aula quebra-cabeça ainda não serem mais amplamente implementadas! Vamos testar?

43 visualizações1 comentário

EU ENSINO

Conectando experiências, desenvolvendo líderes.

whats t.png
  • Facebook Basic Black
  • Black Instagram Icon
  • YouTube
  • LinkedIn
  • Twitter