Como apoiar estudantes LGBTQ+ durante o ensino remoto?

Atualizado: Out 15

Dicas para superar as barreiras do distanciamento e garantir a segurança de todos


Devido ao avanço da pandemia causada pelo novo coronavírus e da necessidade de isolamento social, grande parte das escolas brasileiras tiveram que fechar as portas e se adaptar ao ensino remoto. Impactados pela repentina mudança de rotina, estudantes de diferentes realidades se viram obrigados a se adaptar a novas metodologias de ensino e a conviver com as incertezas diante do futuro.


Embora as inquietações acerca da pandemia atinjam todos esses alunos, para alguns, a situação pode ser um pouco mais complexa. Enquanto alguns estudantes estão vivenciando nos espaços domiciliares um porto-seguro de afeto, o que facilita o enfrentamento às dificuldades da aprendizagem remota, para outros, a convivência com a família pode ser um empecilho que agrava ainda mais a complexa situação de isolamento social.


Por exemplo, no Brasil, segundo dados da consultoria de engajamento Santo Caos, 63% dos jovens LGBTQ+ relatam rejeição total ou parcial de membros da família, enquanto dados do Instituto de Pesquisa Data Popular mostram que 45% dos pais não aceitam seus filhos LGBTQ+. O complexo cenário denunciado pelos números apresentados aqui torna-se ainda mais nefasto no momento de pandemia. Para muitos estudantes que não são aceitos por seus pais, o isolamento no ambiente domiciliar pode ser um verdadeiro pesadelo.


Laura McGuire, consultora de diversidade e especialista em educação sexual, explica que, para esses estudantes, os longos períodos de convivência dentro de casa com a família pode causar traumas que geram medo e ansiedade. Por isso, é fundamental que, mesmo no ensino remoto, educadores estejam atentos e dispostos a criarem espaços seguros de acolhimento para aqueles que se encontram nessa situação.


Abaixo, seguem algumas dicas que podem ajudar professores, coordenadores e gestores a construir esses espaços:


1. Garanta que a identidade dos estudantes seja aceita e acolhida pelos colegas e demais profissionais


Segundo o levantamento da Pesquisa Nacional sobre estudantes LGBT e Ambiente Escolar, 73% dos jovens entrevistados já sofreram agressão verbal por causa de sua orientação sexual, enquanto 60% sentiram insegurança na escola por causa da orientação sexual. Um primeiro passo para acolher esses jovens e apoiá-los nesse momento difícil consiste em garantir que eles tenham sua identidade e sexualidade respeitadas. Como educador, você deve garantir que estudantes LGBTQ+ que não se identificam com o seu nome original sejam tratados pelo nome social que escolheram adotar, tanto pelos colegas de turma quanto pelos demais profissionais da escola. Isso significa que, mesmo quando as listas oficiais de chamada ou outros documentos ainda utilizarem o nome designado no nascimento do estudante, é necessário que você deixe claro para toda comunidade escolar a importância de respeitar o nome social.


Para fazer isso sem nenhum constrangimento para os alunos LGBTQ+, você pode pedir para que todos os estudantes compartilhem com a sala o seu nome, naturalizando a experiência de inclusão desses jovens no ambiente escolar. Você também pode pedir para que os alunos compartilhem, além do nome, informações relevantes sobre eles mesmos. Isso ajuda a construir um ambiente seguro no qual os jovens LGBTQ+ podem falar sobre o uso de pronomes, sem que isso seja uma obrigatoriedade constrangedora.


Por fim, forneça um caminho para os alunos que não se sentem confortáveis em compartilhar essas informações com toda a classe. Deixe claro que todos os alunos são bem-vindos para conversas privadas com você em outros momentos além da aula.


2. Inclua figuras históricas LGBTQ+ em suas aulas


Outra prática necessária para a criação de um ambiente escolar saudável para os LGBTQ+ consiste em incluir figuras importantes que sejam abertamente membros da comunidade LGBTQ+ nos conteúdos didáticos. A representatividade na sala de aula, mesmo quando virtual, é importante para que os alunos LGBTQ+ possam se sentir inspirados e se reconhecer nas mais diversas profissões e carreiras.


3. Discuta diversidade e preconceito


Em 2009, uma pesquisa do Ministério da Educação em parceria com a fundação Instituto de Pesquisa Econômicas da USP (FIPE) revelou que a população LGBTQ+ é a que mais sofre com bullying e preconceito no ambiente escolar. No Brasil, ainda são raros os casos de escolas que tratam em suas abordagens curriculares temas como a diversidade sexual. Segundo dados do Saeb de 2011, mais da metade das escolas brasileiras que oferecem ensino médio não desenvolvem projetos sobre homofobia e transfobia.


Mesmo no caso das escolas que trabalham esses temas com os alunos, é comum que a abordagem fique restrita às áreas de ciências e biologia. É extremamente importante que esses tópicos sejam incluídos de uma forma interdisciplinar, tocando em assuntos como direitos humanos, desigualdade, respeito às diferenças e preconceito.


Essa abordagem mais ampla permite que os alunos expressem suas dúvidas e visões de mundo sem preconceitos. Especialmente, no ensino remoto, é importante que você prepare conteúdos que possam ajudar os alunos a pensarem nas consequências da discriminação na vida de pessoas LGBTQ+, além de reservar momentos para discussão, caso esteja adotando ferramentas síncronas de aprendizagem. Isso pode ajudar a prevenir casos de bullying virtual e episódios de preconceito em mensagens virtuais e redes sociais.


4. Esteja atento!


Normalmente, é fácil para a maioria dos educadores identificar alterações no comportamento dos estudantes e sinais de tristeza, ansiedade ou desapontamento. Entretanto, no ensino remoto, esse exercício não é tão fácil. Se você notar que um aluno LGBTQ+ está tendo um comportamento diferente do que costumava ter no ensino presencial, reserve um tempo na semana para conversar com o estudante sobre o que pode estar acontecendo. Você também pode buscar a ajuda de outros profissionais da escola que possam te ajudar com a situação.


É muito importante que educadores ofereçam uma atenção especial para alunos LGBTQ+. Estar atento a sinais de mudanças de comportamento pode ser uma questão de vida ou morte. Dados da Universidade de Columbia mostram que jovens LGBTQ+ têm cinco vezes mais probabilidade de realizar tentativas de suicídio quando comparado a outros grupos sociais. Entretanto, segundo a mesma pesquisa, adolescentes que vivem e estudam em locais receptivos têm 25% menos probabilidade de tentar suicídio do que os ambientes mais repressores.


Isso significa que criar um ambiente saudável para alunos LGBTQ+ impacta diretamente na saúde mental e física dos estudantes. Principalmente no caso de adolescentes e jovens sem o devido apoio familiar, é fundamental que educadores busquem ouvir, acolher e se adaptar a diferentes identidades dentro do universo da diversidade sexual.


E você, tem tomado alguma iniciativa para acolher seus alunos LGBTQ+?

Referências:


Instituto Unibanco. "Silêncio da Escola em Relação à Diversidade Sexual Prejudica a Todos". Disponível em https://www.institutounibanco.org.br/aprendizagem-em-foco/11/


Larissa Darc. Nova Escola. "6 situações que todo jovem LGBT passa na escola e como combatê-las". 2017. Disponível em https://novaescola.org.br/conteudo/4970/7-situacoes-que-todo-jovem-lgbt-passa-na-escola-e-como-combate-las


Secretaria de Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais - ABGLT. "Pesquisa Nacional Sobre o Ambiente Educacional no Brasil". 2016. Disponível em https://static.congressoemfoco.uol.com.br/2016/08/IAE-Brasil-Web-3-1.pdf

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