Aulas remotas e a Educação de Jovens e Adultos – Um relato de prática

Renata Gibelli, professora na EJA, conta um pouco sobre sua experiência


Com a pandemia do novo coronavírus, muitos foram os caminhos escolhidos pelas redes de ensino e profissionais da educação para garantir aos alunos o direito de continuar seus estudos. O WhatsApp foi uma das ferramentas eleitas para promover as aulas e manter o vínculo entre escola e estudantes da Educação de Jovens e Adultos.


A EJA visa garantir a escolarização daqueles e daquelas que, por motivos diversos, foram privados dessa experiência. Sabendo que uma das características dessa modalidade de ensino é a diversidade (não apenas de idades, mas também de trajetórias escolares) e conhecendo as realidades dos estudantes, foi proposto o uso do aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp para realização de aulas síncronas diárias com as turmas.


Partindo do levantamento dos números telefônicos dos estudantes, entrou-se em contato com cada um deles para explicar a proposta: criariam grupos, cada um com estudantes de duas ou três turmas que cursavam o mesmo módulo, e durante o período diário de aula um professor estaria presente no grupo propondo tarefas e mediando reflexões.


Os estudantes receberam um link de acesso ao grupo e um horário semanal que apontava a área do conhecimento e o professor que mediaria o encontro em cada dia da semana. Enfatizou-se que o grupo não seria um espaço de encontro informal ou trocas de mensagens aleatórias, mas sim um “grupo sala de aula” que é espaço exclusivo de ensino e aprendizagem.


Como são as aulas?


No início do encontro, o professor que faz a mediação altera as configurações do grupo, possibilitando que todos os participantes possam enviar mensagem (e o mesmo acontece no final do encontro, alterando as configurações para que apenas os administradores – ou seja, os professores e gestores - possam enviar mensagem). Dessa forma, as interações ocorrem exclusivamente durante o horário determinado e o grupo mantém uma proximidade com a rotina que existia nas aulas presenciais.


A aula sempre começa com os estudantes registrando seus nomes e módulos. Essa “chamada” acaba sendo também um momento mais descontraído e afetuoso em que professores e estudantes se acolhem e é possível conversar e cuidar da motivação para seguir estudando.


Na sequência, o professor apresenta a proposta da aula. Para fomentar e aquecer o debate, lança perguntas problematizadoras seguidas de imagens, vídeos, testes rápidos, podcast, etc. A ideia é fazer do grupo de WhatsApp uma espécie de fórum de discussão para envolver os estudantes e possibilitar o estudo do tema.


Depois disso, é postado um passo a passo para orientar a realização da tarefa e um arquivo em PDF (com textos de apoio e exercícios) para que os estudantes façam, geralmente em suas apostilas ou cadernos. Quando terminam, enviam fotos para correções. Complementando as orientações e dependendo da intencionalidade da aula, alguns professores gravam vídeo ou áudios, elaboram slides ou usam ferramentas como o Google Formulários, Mentimeter e Jamboard.


Durante todo o período da aula, o professor fica à disposição para tirar dúvidas e orientar o grupo. Antes de comunicar o encerramento da aula e alterar as configurações do grupo, faz uma breve síntese do que foi proposto naquele dia e da narrativa construída por meio da discussão com os estudantes. Retoma que a atividade pode ser entregue posteriormente, respeitando o tempo de cada um para o desenvolvimento. Reforça que todas as orientações apresentadas estão disponíveis também em uma plataforma de gerenciamento de atividades para que os estudantes que não puderam participar daquele encontro em tempo real possam fazer as tarefas posteriormente.


Como as postagens são formatadas?


Exploram-se os recursos disponíveis no WhatsApp para deixar a postagem visualmente convidativa e didática: negritam palavras-chave, dão espaço entre frases, usam emojis que ajudem a compreender as orientações e optam por letras em caixa alta quando necessário (pensando que em algumas turmas contamos com alunos que estão em processo de alfabetização).


Com que frequência diversificam as ferramentas utilizadas em aula?


Por questões de dificuldade com o acesso à internet, nem todos os estudantes conseguem baixar vídeos ou acessar o Youtube, por exemplo. Então, os professores buscam dosar a quantidade de ferramentas indicadas em cada encontro. Além disso, para que todos tenham condição de desenvolver o que foi proposto, as atividades são complementadas por essas ferramentas, porém não dependem exclusivamente destas para serem realizadas.


Por que não fazer chamadas de vídeos?


As chamadas de vídeo acontecem, porém são esporádicas. Além do mencionado desafio de acesso à internet, muitos estudantes da EJA viram seus horários de trabalho e rotinas familiares alterados por conta da pandemia. Alunos que reservavam, por exemplo, o período da manhã para estudar, passaram a ter que disponibilizar esse horário para outras demandas. Então, tornou-se um desafio agrupar toda a turma em uma chamada de vídeo que promoveria um debate ou a explanação de um tema. Para que todos tivessem a mesma oportunidade de desenvolver as propostas de atividade, a opção foi um modelo de aula que mesmo sendo síncrono funcionaria também de maneira assíncrona.


Há indicações de materiais complementares de estudo?


Da mesma forma que alguns estudantes dispõem de pouco tempo para se dedicar aos estudos ou contam com recursos limitados de internet, outros demandam materiais para poder continuar estudando após o horário de aula. Assim, nas aulas são sugeridos sites, lives, programas de TV, livros, etc.


Qual o ponto essencial para essa proposta funcionar na modalidade de ensino EJA?


O apoio e acompanhamento da gestão e parceria entre os professores são pontos fundamentais para esse formato de aula funcionar. Visto que se trata de um exercício novo para todos, avaliar constantemente as ações e replanejar o trabalho é fundamental e isso torna-se possível quando há o espelhamento de práticas, ajuda na hora de fazer uma leitura crítica daquilo que se produz, debates para poder aproximar teoria e prática e formação.


Pensando em um contexto em que professores jovens e adultos trabalham com estudantes jovens e adultos, a proposta de aulas síncronas pelo WhatsApp busca valorizar e incentivar a autonomia dos educandos em conduzir seus estudos. Respeitar as múltiplas realidades garantindo flexibilidade nos modos de interação e levar para sala de aula virtual temas que dialogam com toda essa diversidade é um caminho para reconhecer as especificidades dessa modalidade de ensino.


Renata Gibelli é professora de História na modalidade EJA. Leitora, desenvolve ações de fomento à leitura dentro e fora da escola. Participa também da elaboração de conteúdos com foco no desenvolvimento de competências socioemocionais e realiza formações para gestores e professores.


Agradecemos muito a disponibilidade da Renata de trazer para nós experiências tão ricas durante o ensino remoto na EJA!

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