Alternativas para a educação do campo

Atualizado: Fev 24

O que podemos aprender com o programa colombiano Escuela Nueva


Apesar do rápido avanço dos processos de urbanização no Brasil, a demografia do país ainda é marcada pela grande quantidade de famílias que residem em áreas rurais. Segundo dados da Pesquisa Nacional de Habitantes por Domicílio (PNAD), 15,28% dos brasileiros vivem em zonas distantes dos grandes centros urbanos, número maior do que o encontrado em países vizinhos, como Argentina e Chile.

O cenário de contraste da realidade interiorana com aquilo que se vê em áreas urbanizadas impõe desafios para educadores e gestores públicos que, muitas vezes, encontram dificuldades em adaptar instrumentos pedagógicos, curriculares e metodológicos nas políticas educacionais para as zonas rurais.


Apesar de raras, algumas experiências bem sucedidas na América Latina podem servir como exemplo para países que, como o Brasil, ainda não conseguem implementar efetivamente programas voltados para as escolas rurais. Na Colômbia, o projeto Escuela Nueva tem sido referência internacional no que se refere a sistemas educacionais para o campo.


Idealizado ainda nos anos 60, o sistema surgiu da necessidade de reformulação da educação em um período histórico marcado pela forte presença de violência e de conflitos políticos nas zonas rurais do país. A complexidade do contexto se refletia na gestão educacional colombiana. No período, as escolas rurais eram marcadas pela negligência, pela ausência de metodologias robustas e pela carência de materiais didáticos, o que desmotivava professores e dificultava a relação entre comunidades e escolas.


A dramática situação exigiu uma transformação completa do sistema educacional. A necessidade levou à construção do Escuela Nueva pela socióloga Vicky Colbert, um sistema de ensino que aposta em uma abordagem integral centrada no aluno e na realidade multisseriada - situação na qual alunos de diferentes idades e níveis de aprendizagem compartilham os mesmos professores ou, até mesmo, a mesma sala de aula.


Baseado na interação entre quatro vertentes fundamentais - proposta curricular, formação, administração e contato com a comunidade, o Escuela Nueva propôs um novo paradigma pedagógico, não mais centrado na aprendizagem passiva, mas sim em uma construção coletiva e cooperativa do conhecimento. Para isso, o currículo das escolas foi completamente reformulado. Pensado para a realidade rural - caracterizado pela alta defasagem no número de docentes, o Escuela Nueva implementou uma metodologia na qual os alunos são divididos em pequenos grupos e estudam colaborativamente a partir de guias auto instrucionais disponibilizados pelo governo. Ao invés dos professores ficarem em pé em frente a uma lousa transmitindo conhecimento, eles passam nos grupos, verificando dúvidas e reforçando as instruções. Essa abordagem busca facilitar o trabalho dos professores na realidade multisseriada e de baixa qualificação formal, ao mesmo tempo que permite que os alunos realizem progressos no seu próprio ritmo, a partir do apoio dos colegas e da cooperação mútua.


O foco da aprendizagem, portanto, passou a ser norteado por uma abordagem de formação integral do aluno. A leitura passou a ser incentivada a partir da instalação de bibliotecas financiadas por organizações internacionais como o Banco Mundial e a UNESCO, enquanto equipamentos coletivos como quadras esportivas, cozinhas comunitárias e hortas passaram a fazer parte do cenário das escolas, propondo uma educação que não se restringe à sala de aula e aproveita a disponibilidade de espaço e de contato com a natureza, características típicas das regiões rurais.

Em complemento, inspiradas nos estudos de Paulo Freire, as escolas também ampliaram a participação dos alunos nos processos decisórios. Organizações estudantis apelidadas de Gobierno Escolar foram criadas para envolver as crianças na gestão escolar, fomentando espaços para que elas desenvolvam capacidade de liderança, consciência social, oratória e habilidades de trabalho em grupo, além de fortalecer o vínculo dos estudantes com a escola e democratizar as decisões, propondo uma escuta ativa às demandas dos alunos.

No que se refere à formação dos professores, o programa apostou na formação contínua e na troca de experiências entre os docentes. Encontros chamados de Microcentros Rurais são organizados até os dias atuais para que grupos de 10 a 15 professores de regiões vizinhas possam realizar intercâmbios de atualização e aperfeiçoamento pedagógico. No caso de novos professores, a formação inicial é feita por três oficinas sequenciais com duração de uma semana - Iniciação, Metodologia e Organização e uso da biblioteca.


O uso dessas ferramentas pelo programa conseguiu reduzir a evasão escolar, além de incentivar o retorno de estudantes que tinham abandonado os estudos, respeitando o tempo de cada aluno e propondo alternativas para as avaliações tradicionais. No que se refere aos indicadores de aprendizagem, o programa resultou em avanços nos dados relativos ao ensino de matemática e espanhol, atingindo níveis similares aos das escolas urbanas, o que levou ao reconhecimento pela UNESCO, em 1988, da Colômbia como o único país da América Latina em que as escolas rurais alcançaram melhor desempenho que as escolas urbanas. Mais do que isso, o contato próximo com a comunidade conseguiu influenciar significativamente a educação de adultos, além de promover competições esportivas, campanhas bem sucedidas de conscientização da saúde e celebrações comunitárias.


O Escuela Nueva, portanto, transformou a realidade do cenário rural colombiano a partir de um desenho que é pensado especificamente para essa realidade, explorando as particularidades do meio rural, como o contato com a natureza, os laços comunitários e as necessidades do calendário agrícola. Os êxitos da política levaram ao reconhecimento pelo Banco Mundial como uma inovação de alto impacto, servindo de exemplo para 19 países, incluindo tentativas de aplicação no nordeste brasileiro, nas Filipinas e na Índia, o que beneficiou mais de 5 milhões de crianças. Os acertos do Escuela Nueva, assim como as defasagens do programa, podem ser um interessante ponto de partida para avaliarmos as políticas públicas para a educação rural nos países em desenvolvimento, em especial os latinoamericanos. A experiência colombiana nos mostra que, com um olhar atento e empático às particularidades e as necessidades de diferentes realidades, inovação e investimentos para garantir a excelência educacional, é possível transformar a realidade da educação no campo.

Falamos nesse post sobre a educação no campo e os desafios que ela envolve. A BNCC também deve ser aplicada com alunos dessas áreas e nós temos como te ajudar!


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Referências:


Analu Bussular. Escuela Nueva. 2020.


Danilo Mekari. Dos campos da Colômbia para o mundo. PORVIR - Inovações em Educação. 2014.


Patrick J. McEwan & Luis Benveniste. The politics of rural school reform: Escuela Nueva in Colombia, Journal of Education Policy, 16:6, 547-559. 2001.


Rosa Maria Torres. Alternativas dentro de la educación formal: el programa "Escuela Nueva" de Colombia. Perspectivas: Revista trimestral de educación comparada. ISSN 0304-3053, Nº. 4, págs. 549-558. UNESCO, 1992.


Sara Handam. Children Thrive in Rural Colombia's Flexible Schools. The New York Times, 2013.

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