• João Paulo Campos

A última aula antes da pandemia

Relato do professor João Paulo sobre as mudanças e desafios do ensino remoto


Era uma terça-feira, 17 de março de 2020. Na noite anterior, a Prefeitura da cidade havia anunciado que um recesso de 15 dias seria o início do deslocamento e a suspensão das aulas presenciais devido ao então potencial do Sars-Cov-2. Era um dia agitado, não era um pré-férias comum, e já havia a insistência dos meios de comunicação em destacar que “não é férias” e “fique em casa”. Eu estava prestes a iniciar a minha última aula presencial, 5 aulas, 3 turmas de nono ano distintas, disciplina de ciências.


Quando dei os comandos de entrada na porta, o acolhimento inicial das minhas turmas e os procedimentos de gestão de sala usuais foram substituídos por um “professor, o senhor poderia explicar o que está acontecendo?”. Além de professor, sou Biólogo e mestre em microbiologia, e, mesmo assim, eu não tentaria explicar um assunto tão desconhecido no momento. Mas, como era meu dever fazê-lo, desisti do assunto de reações químicas e coloquei em discussão o que eles já sabiam do tema “fechamento, distanciamento, todo mundo vai pegar” e aflições que surgiam “mas e a prova? E o meu futuro?”.


Sendo vulnerável e falando com franqueza, eu disse que o mais próximo que tinha vivido disso tinha sido a pandemia de H1N1 em 2009. Contei da experiência e das adaptações que fizemos, incluindo o início do uso do hoje diário álcool gel 70%. A partir de então, falamos de aspectos práticos. Alertei os estudantes que o risco principal não era a contaminação pelo ar, mas a transmissão por meio de vetores. Relembramos o papel dos vírus na natureza e resgatamos todo o ciclo. Mostrei também a lógica por trás do isolamento social proposto e o porquê da primeira previsão desse isolamento durar um mínimo de 14 dias.


Falamos de política, biossegurança, saúde e doença. Ao final, falamos de sonhos. Disse aos estudantes que, mesmo com tudo, eles deviam se preparar para mais que 15 dias em casa e que, quanto melhor informados estivessem para levar informações exatas e precisas às suas famílias, melhor caminho eles estariam seguindo. Era preciso manter a calma, seguir os protocolos o máximo possível, entender que o vírus e suas mutações são um ciclo natural e que, com o avanço do atendimento médico, das ciências e as medidas restritivas bem executadas, aquilo tudo passaria como o H1N1.


Naquele dia os portões da escola se fecharam, e eu mesmo nem voltei lá. Os armários cheios das avaliações de primeiro bimestre que seriam realizadas entre o fim de março ao começo de abril daquele ano agora acumulam poeira. Precisamos voltar ao passado e garantir primeiro a alimentação, em seguida o acesso à educação, que seja de casa ou através de qualquer outro método, para, meses depois, aqueles mesmos estudantes de forma precária retomarem os estudos depois de todas as prorrogações de recessos possíveis.


Aquela foi minha última aula presencial, mas talvez nenhuma outra tenha sido mais importante e contextualizada na realidade dos estudantes.


Como professor, e talvez fale em nome da nossa profissão, perdemos o norte da prática das bases do nosso trabalho, ou da parte mais superficial dele. Ao invés de estarmos em pé nas salas, nos encontramos sentados em casa na frente do computador. O contato e a conversa foram substituídos por chamadas e câmeras abertas e fechadas. Os desafios da profissão de professor foram vários durante essa reinvenção completa pela pandemia.


Mas e os estudantes? Quais impactos dois anos de aulas remotas ou acesso híbrido vão trazer nas suas vidas, carreiras e histórias? As dores desse período são imensuráveis. Velhos códigos, regras, bases que guiavam a educação precisarão de sérias atualizações. As mudanças nos alunos e no mundo a ser construído por eles no pós-pandemia são de esperar ou pagar para ver, pois são certas.


Torço para um mundo melhor e uma educação ainda mais efetiva, própria e personalizada, para que minha última aula presencial, tão contextualizada para solução de problemas da realidade, seja rotina.

Falamos nesse post sobre os desafios enfrentados desde que o ensino remoto virou rotina na vida de muitos educadores. Em ano de implementação da BNCC, todo apoio é bem-vindo para enfrentá-los!


Pensando nisso, disponibilizamos de modo gratuito um acervo de pílulas de conteúdo prontas para serem usadas em sua prática diária, seja no ensino remoto, híbrido ou presencial. Elas são de fácil acesso, podendo ser enviadas pelo Whatsapp sem o consumo de dados para baixar no celular. Que tal utilizá-las como uma forma de mobilização dos familiares?


Veja alguns exemplos de temas desenvolvidos:


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