É possível ensinar a ensinar?

Atualizado: Abr 8


Apesar do enorme aumento de matrículas escolares ao redor do mundo nos últimos 50 anos, muitos alunos não estão realmente aprendendo. Há provas abundantes de que a qualidade dos professores é um fator determinante no aprendizado de seus alunos e portanto, entende-se que grande parte do problema se deve à qualidade dos professores. Mas, pouco se sabe ainda sobre como aprimorar as habilidades dos professores para darem uma boa aula.


Com o objetivo de decifrar essa questão, um estudo seguiu a evolução da educação no Peru, que em 2010 começou a implementar um programa nacional que envia tutores experientes para visitarem professores de escolas em regiões rurais uma vez por mês. Dessa forma, este estudo foca em um estilo de formação em exercício conhecido como coaching (ou tutoria), um método em que tutores experientes observam os professores em sala de aula e frequentemente lhes providenciam devolutivas sobre suas práticas pedagógicas.


Programas de tutoria, como são chamados, possuem três características principais. São:

  • Individualizados - fornecem sessões pessoais e personalizadas para cada professor e suas necessidades específicas,

  • Contínuos - acontecem ao longo de um período de tempo, como um ano ou mais,

  • Intensivos - as sessões acontecem regularmente, como a cada semana ou mês.


No caso do Peru, em cada visita, os tutores passavam um dia inteiro com cada professor, que consistiam em 5 horas de observação de sala de aula e 3 horas posteriores de devolutivas centrado em práticas pedagógicas.


A tutoria oferecida aos professores melhorou substancialmente o aprendizado dos alunos: houve grandes efeitos positivos nos resultados em provas padronizadas. Esses efeitos também provaram-se constantes tanto entre alunos que geralmente tiram notas mais altas, quanto entre aqueles com notas mais baixas, o que demonstra que todos os alunos estão sendo beneficiados pelo programa.


Além disso, uma vez que consideramos a alta rotatividade de professores entre as escolas ao longo dos anos, os resultados do programa se mantém nas escolas nas quais o programa foi encerrado, desde que se mantenham os professores que passaram por ele. Isso sugere que o programa está, de fato, contribuindo para o capital humano dos professores, ao invés de trazer resultados pontuais pelo monitoramento das atividades dos professores. Essa constatação traz dúvida à literatura econômica - tradicionalmente cética em relação à programas de formação de professores e mais favorável a sistemas de incentivo e mecanismos de monitoramento.


Ao mesmo tempo, escolas que perderam o programa, e também seus professores que foram formados por ele, registraram grandes quedas no desempenho de seus alunos em relação às escolas que o mantiveram, sendo que essas quedas eram praticamente equivalentes aos ganhos que o programa havia trazido. Isso sugere que a tutoria funciona exclusivamente por meio dos professores e não possui efeitos adicionais que incentivem o resto da escola (diretores, pais, ou estudantes) que poderiam se manter mesmo que os professores que passaram pela tutoria deixem a escola. O estudo também seguiu acompanhando os professores formados que mudaram para escolas que não passaram pelo programa, com o objetivo de testar a persistência dos efeitos do programa mesmo fora das escolas originais. Assim, registrou-se que todos os efeitos da tutoria dos professores se mantiveram mesmo um ano após a mudança do professor.


Tudo isso confirma a ideia de que o programa de tutoria trabalha diretamente aumentando o capital humano dos professores, e que eles retém todo o efeito do programa mesmo quando se mudam para novas escolas. Desse modo, o programa não é somente efetivo em melhorar a pontuação dos alunos em provas e testes, mas seus efeitos são também altamente persistentes.


Por último, a alta mobilidade dos professores implica o governo como agente fundamental para implementar esse sistema nas escolas, já que escolas são prováveis a investir muito pouco individualmente devido a probabilidade de que os professores as deixem e levem consigo o seu investimento em capital humano.


Assim, essa é uma promissora política pública para países como o Peru, ou ainda, o Brasil, que necessitam apoiar os professores, oferecendo programas de capacitação para que possam aprimorar suas habilidades, para melhorar a qualidade de seu sistema público de educação.




9 visualizações

EU ENSINO

Conectando experiências, desenvolvendo líderes.

  • Facebook Basic Black
  • Black Instagram Icon
  • YouTube
  • LinkedIn
  • Twitter